terça-feira, 3 de junho de 2014

A busca pela identidade Pétala Souza A moda possui duas vertentes: uma é a individualidade, e a outra é a integração social. Por es...

A MODA BRASILEIRA: Reflexos e reflexões

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A busca pela identidade

Pétala Souza

A moda possui duas vertentes: uma é a individualidade, e a outra é a integração social. Por essa constante tensão entre distinção e identificação, entre “fazer diferente” e “fazer igual” a moda se define.

A vontade de fugir dos estereótipos americanos está presente na cultura brasileira viva e atuante. Nunca o brasileiro interessou-se tanto por si mesmo. Sendo o design uma linguagem da cultura contemporânea cria a diferença, percebe-se que este design é importante para a própria identidade cultural de um povo.



Entre as iniciativas para favorecer a Marca Brasil no exterior, a promoção da moda nacional e o incentivo à constituição de consórcios de exportação têm representado papéis de destaque e possibilitam um alcance maior em termos sociais e de desenvolvimento efetivo para o país, caminhando na direção da formação de verdadeiros cluters, distritos em que se concentram, interconectam-se e complementam-se os diversos elos de uma cadeia produtiva e à semelhança do que ocorre na Itália, uma vez que algumas regiões brasileiras já apresentam características que as aproximam desse modelo, como Nova Friburgo (RJ) para a moda íntima, Limeira (SP) para as bijuterias e Novo Hamburgo (RS) para os calçados.

Considerando-se que os líderes do mercado no século XXI são aqueles que sabem transformar os trunfos de cada cultura em vantagem competitiva de linguagem universal; a moda brasileira para progredir em destaque internacional, deve vale-se de todo seu potencial cultural trabalhando-o de forma á transformá-lo em um produto com apelo globalizado.

Escolher uma roupa é escolher a forma como você quer ser visto. Quando você bate o olho em uma pessoa você sabe o que ela quis dizer com aquela roupa, é possível saber também de onde ela veio qual sua interação com o mundo.


A moda brasileira deveria, portanto assimilar a cultura nacional e internacional para que se crie um produto com identidade brasileira e apelo internacional. Esta questão é bastante antiga, mas faz mesmo sentido num mundo globalizado?

A condensação do estilo de vida de um determinado local dentro de um conceito de moda pode ser muito bem-vinda, mas deve-se tomar cuidado, pois o aprisionamento desse mesmo estilo dentro de um ou alguns estereótipos é um imenso equívoco.

Infelizmente, esse equívoco pode ser visto frequentemente em pequenos e grandes eventos internacionais destinados a promover a moda brasileira, regados a mulatas, samba, caipirinhas, feijoadas e afins, numa exibição extremamente imprópria para o desenvolvimento de nossa indústria de moda.

Portanto, a busca por uma identidade na moda deve abranger a pluralidade do mundo contemporâneo. Dessa forma, o que identificaria as criações do Brasil não seriam aquelas que transformassem as roupas em fantasias étnicas, mas sim as que possuem os elementos que representassem a cultura brasileira em todos os aspectos de um povo com forte identidade cultural e identificação com o mundo.

Conquista do reconhecimento

Mas o talento da moda brasileira tem sido reconhecido. As semanas de moda de São Paulo e do Rio de Janeiro consolidaram-se no mercado interno e ganham rapidamente, posição de destaque do ponto de vista internacional.

Em artigo publicado no site da Vogue e assinado pela diretora criativa, Candy Pratts Price. Convidada pelos organizadores da São Paulo Fashion Week, Candy veio até São Paulo observar o que as mentes criativas dos estilistas nacionais estão produzindo. O resultado foi bom, "vocês estão no caminho certo", disse ela em palestra realizada no dia 31 de janeiro no MAM que discutiu o impacto da tecnologia e da internet na comunicação da moda global. De volta à redação americana, sua avaliação da edição de outono-inverno 2011 da semana de moda mais importante da América Latina foi positiva .Sob o título Brazil’s Got Talent, a diretora elege três coleções que para ela melhor simbolizam a energia e cultura brasileira, são elas: Osklen de Oskar Metsavaht, Ronaldo Fraga e Neon da dupla Rita Comparato e Dudu Bertholini. No fim do artigo, Candy Pratts Price escreve que "em uma cidade (São Paulo) onde os habitantes gastaram quase 2 bilhões de dólares em produtos de luxo no ano passado, o Brasil está a caminho de ser o grande centro das atenções".

Existem mais de 80 escolas de moda e cerca de 50 eventos de porte são realizados anualmente em todo o Brasil. De acordo com o site da Agência de Notícias Brasil Árabe, as coleções de estilistas brasileiros já fazem parte dos mais importantes desfiles internacionais de moda e ocupam araras de algumas das mais cobiçadas lojas de grife do mundo. As portas do globo estão abertas para a moda brasileira. As roupas fabricadas aqui chegam tanto em grandes redes da Europa quando em lojinhas da africana Gâmbia. Por outro lado, quando se fala da moda brasileira, é impossível deixar de mencionar os calçados. As sandálias Havaianas e Melissa são exportadas para diversos países, enquanto designers de calçados mais sofisticados, como Fernando Pires e Constança Bastos, têm suas criações exibidas pelos pés das principais estrelas do circuito fashion.

Como chegamos aqui

Essa história é contada de forma completa, objetiva e muito interessante na pesquisa Moda e Identidade Brasileira, elaborada por Denise Pitta de Almeida em 2003. De acordo com a autora, na década de 1920, ao sabor do modernismo e do crescimento econômico dos barões do café, os gostos eram profundamente identificados com a corte européia e dela copiados.

Em 1927 ocorreu o primeiro desfile promovido por uma loja, a Mappin Stores, que se destacava por vender mercadorias importadas para a elite paulistana. A bonança da década de 1920 foi interrompida em seu final, com a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, que arrastou junto consigo os barões brasileiros do café. Mesmo assim, a moda brasileira continuou a crescer durante a década de 30: viu surgir Mena Fiala, a primeira estilista brasileira, que fazia adaptações dos modelos europeus ao clima brasileiro, e a loja de Madame Rosita, no centro de São Paulo. Ao mesmo tempo, as revistas européias ganhavam suas edições brasileiras.

Na década de 40, o look de Carmem Miranda apresentou ao mundo o charme latino-americano, e a 2ª Guerra Mundial provocou o desenvolvimento da indústria brasileira têxtil e de confecções.

Nos anos 50, veio um grande avanço tecnológico com o governo JK e a implantação da TV Tupi, entre outros fatos marcantes. Na moda, surgiu Dener Pamplona de Abreu que, com seu trabalho e prestígio, favoreceu o desenvolvimento da primeira geração brasileira de costureiros: Clodovil Hernandez, Guilherme Guimarães e, futuramente, Markito e Ney Galvão, entre outros. Foi o início da alta costura brasileira e, nas palavras de Denner, “nossa moda é tropical, com tecidos leves e estamparias mais vivas”. Dener acertou em cheio o diferencial por meio do qual a moda brasileira evoluiria.

As grandes tecelagens passaram a promover a aceitação de seus produtos para um público que ainda desconfiava do produto nacional, e convidavam nomes da alta costura francesa e costureiros brasileiros reconhecidos para apresentarem à sociedades coleções com tecidos brasileiros. Surgiram os grandes desfiles de modas promovidos pela indústria que, com a realização da primeira Fenit, no final da década de 50, inseriram o Brasil no mapa mundial da moda. Foi muito importante a presença da Rhodia nesse cenário, reunindo artistas e costureiros em shows e eventos destinados a difundir a moda brasileira no Brasil.

Os anos 70 trouxeram o início da profissionalização no setor da moda, com a consolidação das butiques e o surgimento das primeiras grifes brasileiras Foram marcantes o Grupo Moda-Rio, primeiro núcleo organizado de estilistas, a marca Mr Wonderful e a estilista Zuzu Angel. Nos anos 80, o aprofundamento da profissionalização viria por meio do lançamento das primeiras escolas de moda, do surgimento de uma nova geração de estilistas e de grifes de jeanswear, verdadeira paixão na época.

Os anos 90 começaram de uma forma bastante traumática para a moda brasileira, com a abertura comercial e a crise provocada pelo Plano Collor, que provocou o fechamento de mais de 800 empresas e o desemprego de um milhão de pessoas no setor. Mesmo assim, por mais paradoxal que possa parecer, esse foi o tempero para a finalização do prato que vinha sendo cozinhado há quase cem anos. A explosão dos eventos de moda, o Mercado Mundo Mix, as modelos brasileiras fazendo sucesso nas passarelas internacionais, a moda ganhando status de preferência nacional e o charme do Brasil, fizeram com que o New York Times considerasse 2000 o ano da moda brasileira. Os jornalistas estrangeiros, que finalmente concordaram em vir assistir aos desfiles da São Paulo Fashion Week, se declararam surpresos com a criatividade e a qualidade da moda brasileira.

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