quinta-feira, 20 de agosto de 2015

por Sandra Teschner "É certo censurar o homem que é cego a coincidências em sua vida diária, pois, sendo assim, ele priva sua vida...

Por acaso, de propósito

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por Sandra Teschner

"É certo censurar o homem que é cego a coincidências em sua vida diária, pois, sendo assim, ele priva sua vida de uma nova dimensão de beleza"

(Milan Kundera) 

Resolvi abrir meu lado "caixinha de música com bailarina deitada no feltro vermelho da parte destinada a portar jóias” e expor algumas de minhas convicções (verdades absolutas? desconheço-as) sobre as questões que vão além das coincidências. A díspare realidade que habita em mim envolvendo os "acidentes do acaso" – sendo cética a explicações de caráter meramente religiosos ou metafísicos e completamente aberta ao entendimento coerente destes via leitura sincronista (onde aí a bailarina até levanta e dança no verdadeiro espaço dedicado a ela) – dá-me a tranqüilidade de estudar, buscar entender e tirar proveito desta compreensão. A sincronicidade é uma teoria tangível a meus sentidos. De certo, a chave dessa caixinha é uma confluência de acontecimentos relevantes no roteiro de minha história pessoal de vida.

O termo "sincronicidade" talvez não seja uma palavra significante para quem ainda não teve contato com o trabalho do psicanalista suíço Carl Gustav Jung ou seus discípulos. Vou explicar. De forma simplista, muitos vêem ou sentem algo de especial no acaso, outros acreditam em meras coincidências quando, porém, nossa experiência pessoal transforma este acontecimento em algo significativo para nossas vidas. Aí temos a ocorrência de um evento sincronista.

Entre o mero acaso e a sincronicidade vive o estado de espírito que se difere nestas situações. Sentimos um algo a mais naquele acontecimento que parece fazer parte de um contexto, de uma trama, coisas que remetem a um fim comum, mas que só podem ser utilizadas se tivermos consciência delas. Num ato sincrônico, o nosso ser é luminoso, recheado de arrepios, emoções, ao mesmo tempo que aparenta estarmos vivenciando uma articulação perfeitamente calculada. Quando nossa experiência nos diz que algo categoricamente diferente está acontecendo, estamos vivendo uma coincidência significativa, a qual Jung chamou de "sincronicidade".

O tema é longo, interessante e se encaixa no perfil dos "divisores de águas" – como nós gostamos de representar às leituras que trazem resultado prático ao nosso dia-a-dia, ou que redimensionam nossa visão de beleza e maturidade perante a vida. Por assim ser, recomendo a leitura de “Sincronicidade: um princípio casual de conexão”, de C. G Jung (1952); “Além das Coincidências”, de Martin Plimmer e Brian King; e “Sincronicidade, ou por que nada é por acaso”, do psicólogo junguiano Robert Hopcke. Pronto, missão cumprida quanto ao nível técnico do tema. Voltemos a meu encantamento.

"A vida de todos nós é baseada em contar histórias (...) E se o que vivenciamos como nossa vida for na verdade uma obra de ficção? Como saberíamos? (...) somente algo de fora poderia chamar a atenção do personagem para a natureza da historia que se está vivendo. Ainda assim, essa ocorrência, qualquer que fosse, precisaria fazer parte dessa trama: teria que fazer sentido, ter um significado, dando aos personagens e à historia começo, meio e fim, certo? (...) Nossa vida é uma história e as ocorrências sincronísticas nos alertam para este fato", idealiza Robert Hopcke. A idéia de uma história conjunta, universal, que engloba a todos nós dentro do "inconsciente coletivo" faz sentido até se analisarmos como nasce a tendência a alguma coisa. Não raramente ocorre de patentes de novas idéias ou produtos de extrema semelhança, comprovadamente não copiadas entre si, surgirem em partes adversas do globo ao mesmo tempo, como se existisse um campo de pensamentos coletivos, algo como um campo magnético. Muita viagem? 

Nunca ocorreu com você vivenciar uma situação negativa que, inexoravelmente, através de acontecimentos "do acaso", leva-o a um momento muito melhor, seja ele mais vantajoso ou que simplesmente o faça mais feliz? Nunca se sentiu ser podado de seu galho predileto, achando que era uma árvore destinada a ser desmatada e de repente você é replantado no ambiente mais propício para o seu bem-estar, porque fora tirado de um local escuro, não fértil, e "casualmente" você encontra outro terreno para renascer? Não estaria Cecilia Meireles se entregando à "certeza da sincronicidade dos eventos" quando escreveu: "Aprendi com a primavera a me deixar podar para poder voltar sempre inteira"?. Os galhos podados inexoravelmente reaconteceriam da maneira que a história pede, brotando, florescendo, se o dono dos galhos não entendesse que a poda era significativa para sua existência?

E quanto ao amor? Quantas histórias não acontecem de caso com o acaso e se transformam na única coisa que poderia ter acontecido? Quantas passagens amorosas – mesmo nascidas de acontecimentos especiais e sincronistas – são meras estepes para o verdadeiro momento mágico, como se tivéssemos que passar por elas para poder chegar numa dimensão maior? A consciência de nossas vivências subtraída do nosso Ego – que sempre tende a remeter ao mundo como se girasse à nossa volta – é que nos dá a abertura para saborear o prazer de não ser o centro, mas fazer parte, ser personagem, ter um lugar na trama da vida.

Para deixá-lo com sabor de quero mais vou chegando aos poucos ao ponto final com gostinho de clímax, pedindo que feche os olhos e pense com muita sensibilidade e carinho se, através de uma música, um cheiro, um som, um nome, uma pessoa, uma brisa soprada em momento de calmaria, ou seja, uma experiência que não era previsível de estar ali, naquele lugar, naquele momento, você já chegou num estado de transição diferente, uma alegria que lacrimeja, arrepios que engrandecem a alma, sentiu a inegável e irresistível presença do divino? Se a resposta do seu corpo e alma for um SIM, o teólogo Rudoph Otto deu nome a esta sensação: Numinous; e o psicanalista Jung gentilmente se apoderou da mesma para descrever o funcionamento da sincronicidade... "A inesquecível vivência de algo que transcende nossas limitações humanas".

Que a Numinosidade seja presença constante em sua vida, e que Deus, em todos os caminhos que levam a ele, seja sempre o verdadeiro autor.


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