quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Por Julia Moraes/colaboração de Marisa Abel Ícone de originalidade e personalidade forte, a Elke é pura maravilha e nos brinda com uma d...

Um peixe chamado Elke!

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Por Julia Moraes/colaboração de Marisa Abel
Ícone de originalidade e personalidade forte, a Elke é pura maravilha e nos brinda com uma deliciosa entrevista exclusiva para Profashional

Não é difícil encontrar mil e duas coisas escritas sobre Elke Maravilha em sites e revistas, afinal, há tempos, ela faz parte de nosso imaginário e tornou-se mais do que uma personalidade na mídia.
Nascida Elke Giorgierena Grunnupp Evremidesm, esta russa, naturalizada alemã, que está prestes a completar 65 anos, fala com naturalidade de suas aspirações, visões de futuro e morte.
Dona de uma voz doce e repleta de conclusões firmes, Elke apresenta os ornamentos que a tornam essa “mulher maravilhosa”. 
Sem fronteiras ou preconceitos, suas afirmações reforçam novos sentidos, e as guerras, como no hinduísmo, adquirem aspectos metafóricos e necessários para grandes revoluções internas na existência de cada um. Alegórica, humana e consciente de seu papel no mundo, Elke Maravilha é dada a rompantes e não tem restrições na dialética. Não fala com cuidado, e exalta com amor e/ou paixão passagens importantes de sua vibrante vida.
Linda e especial, a ex-modelo e atriz é embalada pela cultura mineira e é cidadã do mundo (fala oito línguas), não dispensa uma boa cachaça e a companhia de suas maiores riquezas, seus amigos.
Conheça um pouco mais dessa mulher que engata uma história na outra como que em um filme de plano sequência e sempre carrega suas referências, santos e amores no coração.

Profashional: Em 22 de fevereiro, você completará 65 anos, como estão os preparativos?
Elke Maravilha: Preparo na hora. O negócio é na hora mesmo, não projeto nada para adiante, desde pequena, sou assim. Porque não sei se estarei aqui amanhã.

P.: Num mundo em que a beleza é supervalorizada, até onde você vai em busca do contentamento estético?
E. M.:
Meu conceito de beleza sempre foi diferente. Acho que tenho uma coisa socrática, algo como ética + estética. Quando eu era jovem, tinha uma beleza e, agora, aos 64 anos, outra. Ficar velho e ficar feio? Eu não acredito nisso! Sabe, eu acho que Deus errou com a gente, e acho que ele fez de sacanagem. Quando ele fez os animais, todos nasceram belíssimos, sabendo por que vieram. Nós não! Nascemos sem saber exatamente como agir, meio sem rumo, mas a gente é o máximo, o resto que se exploda. Nós nascemos macacos pelados e pretensiosos. Eu tenho um gato e um cachorro de rua, eles não precisam de banho de loja, eu preciso. Eles já sabem o papel deles, que devem comer, fazer cocô, e nós ficamos tateando a vida inteira. A gente tem de dar um jeito. Tento fazer de mim uma obra de arte; tento me melhorar e evoluir, ficar velho é muito bom. Quando fiz 51, achei que era uma ótima ideia e 64 anos, então... Quando a gente ficar ultrapassado, a gente tem de deitar e dormir. A Terra tem gente demais. Essa é a minha ocupação e não preocupação.

P.: A que você brindaria hoje e bebendo o quê?
E. M.:
À vida e ao prazer, sempre! E com cachaça mineira.

P.: Das impressões de guerra experimentadas por seu pai, quais foram assimiladas em sua vida?
E. M.:
A guerra é necessária, ele não falou, mas eu saquei. Enquanto formos como somos, temos de ter guerras. Todas que tivemos, fomos nós que plantamos. Plantamos bananas e não colhemos cerejas. Plantamos bananas e colhemos algumas bem grandes para enfiar no ‘rabo’ da gente. A guerra é maravilhosa porque ninguém é mais ‘porra’ nenhuma e ela nos coloca no nosso devido lugar. Nós, simples mortais, não sabemos o que é o bem e o mal e sim o que é desagradável. A guerra é necessária! Minha avó era mongol e passou por três guerras, meu avô, por algumas. Eles passaram muita fome, mas nunca disseram “ah, o que fizeram comigo?”. Não existe aquela coisa de coitadinho de mim. Eu perguntava para o meu pai se ele havia sido torturado e ele respondia “ah, de vez em quando enfiavam algo embaixo da minha unha”, como se fosse normal, sem aquela coisa para ficarmos com dó. Seja trágico, mas nunca dramático. O trágico aceita o inexorável.

P.: Sabemos que veio para o Brasil muito pequena, mesmo assim, você se recorda do que mais te impressionou?
E. M.:
No caminho para o Brasil, foram os golfinhos, fiquei encantada! Nós fomos para Minas viver no meio dos negros, escravos, eu nunca tinha visto uma pessoa de cor tão intensa; aí eu fiquei com medo e chorava e meu pai quase me bateu para eu ir no meio deles, mas quando me levou, quase me bateu porque eu não queria mais voltar de lá. Não tenho boa memória da minha primeira infância.

P.: Há tempos, você declarou que “65 anos é uma boa idade para se morrer”. Anda pensando nisso ou alguma coisa mudou de lá para cá?
E. M.:
Meu pai morreu com essa idade e foi uma morte maravilhosa. Eu não posso é ficar vencida! (gargalhadas). Hoje, a gente vê muita burrice por aí, porque jovem burro pode, mas velho burro não! Burrice na velhice é muito feio e antiestético.

P.: Em sua época de modelo, você chamava atenção por ter muita atitude na passarela. Não demorou nada para que grandes nomes da moda começassem a criar para você. Desses nomes importantes, de quem guarda carinho e por quê?
E. M.:
De todos, Guilherme Guimarães. Também consegui ser respeitada pelo Clodovil e todos os outros, foi muito legal. Pela Zuzu, tenho carinho e respeito. Ela era sujeito homem, de muita coragem e eu admiro isto.

P.: Qual é sua relação com a moda atual? Você cria, manda fazer ou experimenta criações da nova geração?
E. M.:
Sou muito amiga do Ronaldo Fraga. A moda acordou para um fato. Ronaldo Fraga disse uma frase muito boa, que a “moda não é simplesmente modelo indo e vindo na passarela é muito mais que isso”. O Brasil está indo brilhantemente e encontrou o seu caminho. Os desfiles são magníficos, são grandes shows e está muito interessante a procura da brasilidade. Não gosto de quem busca raízes porque fomos feitos para voar, quem tem raiz é árvore. Sobre as criações, a maior parte é feita em casa, pela Agazil. Eu monto coisas com a minha mão. Meu dedo é todo furado de tanto bordar e costurar. Walério Araújo também faz coisas ótimas. Breno Neves (São João Del Rei) faz coisas monumentais. Conheci quando ele desenhava para Guilherme Guimarães, em meados de 1970. Beto Kelner, da Gatos de Rua, tem feito cabeças bem interessantes. Colares e adereços, eu monto. Às vezes, eu compro alguns e desmancho, faço outros maiores. Gosto de pegar peças antigas e remeter ao futuro. Comprei algumas coisas em Marrocos, também na Grécia e no Japão. Costas Athanassotous está com um projeto bacana, vai montar algo pra gente. Eu raramente vou a shopping centers em viagens, gosto de coisas culturais dos países e de misturar tudo. Às vezes, estou com várias coisas misturadas do Brasil, da Rússia, do Japão. Gosto muito de toda essa mistura, e o Brasil é isso. Ah, e as botas do Fernando Pires? Ele é maravilhoso, quanto mais velha fico, mais eu gosto de botas, as acima do joelho, tenho até uma que chega na ‘periquita’. (mais gargalhadas)

P.: Ao olhar suas fotografias antigas, nota-se uma menina doce e de riso fácil, quando o riso virou gargalhada, quando a “Maravilha” aflorou em você?
E. M.:
Desde pequena, eu sou assim, mas pensando bem, na adolescência, eu usava muito preto, aí, um dia, eu acordei e explodi em cor. Levei ‘porrada’ na cara no início, mas depois melhorou. E, para mim, é como se diz em Minas, não gostou? Come menos!

 P.: Por onde você já passou?
E. M.:
Morei em Itabira, Valadares, Atibaia, Bragança, Porto Alegre, Grécia, tantos lugares! Vivi um ano e meio dentro de um carro pela Europa, só viajando. Este mês, faço 40 anos de Rio de Janeiro. Sobre São Paulo, existe muita violência, mas é a cidade do dinheiro, e se valorizarem a violência, as pessoas que têm dinheiro vão embora da cidade, como fugiram do Rio. Uma vez, estava em Sampa em um táxi com o vidro aberto e passou um carro da polícia, o guarda me pediu para fechar o vidro e eu respondi que a única vez em que quase fui assaltada foi pela polícia, ele ficou sem jeito. Em Atibaia, morei no Rancho das Amoreiras, foi meu pai quem levou a plantação de morangos para lá e hoje é símbolo da cidade e ela é uma das maiores exportadoras. Meu pai é relembrado com muita referência por onde andou. É muito bom ser filha dele, principalmente porque ele sempre foi um idealista, a vida inteira.

P.: A primeira peruca a gente nunca esquece, quando e como foi a sua primeira experiência?
E. M.:
Quando eu estava com os negros lá na roça, as mulheres usavam tranças e, quando soltavam, tinham os cabelos maravilhosos. Elas falavam que era o meu que era bom, mas eu achava uma b... Um dia, eu pensei: Vou dar um jeito nesse cabelo. Meu sonho era ter cabelo de negro e o Nelsinho me ajudou e eu assumi a minha negritude. A Estoril faz as perucas. Já meus rabos velhos viram dreads, eu costuro e a Marilene monta. Rony (São José do Rio Preto) faz uma peruca africana divina. Eu tenho muita ajuda nessa brincadeira. Graça a Deus.

P.: Todo mundo sabe da sua devoção por “painho”, o que foram os 14 anos ao lado de Chacrinha?
E. M.:
Uma coisa! Painho era um gênio! Tanto dentro, quanto fora, de uma generosidade, e tão brilhante, uma coisa bem brasileira. Ele nunca estava ultrapassado, ele é atemporal. (Elke relembrou dele com a voz embargada de carinho)

P.: Quem hoje é motivo de sua admiração?
E. M.:
Nise da Silveira, primeira psiquiatra brasileira, fez o museu do inconsciente, dos chamados loucos, devia estar viva na alma das pessoas. Existe muita gente boa. O Brasil tá indo muito bem.
P.: Escuta alguém da nova geração da música?
E. M.: MV Bill, sou muito eclética! Gosto de Sepultura, Punk Rock, Ratos de Porão do João Gordo. Caipira, gosto muito! Pena Branca e Xavantinho, gosto de clássicos: Beethoven, Wagner. Gosto de funk no morro do Borel, mas tem de ir lá para dançar. Uakt é um grupo mineiro com instrumentos que eles mesmos fazem, adoro. Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção. No meu espetáculo “Sagrado e Profano”, eu faço desde Sueli Costa, Antônio Nóbrega (sou apaixonada), Falcão, cultura negra, russa, argentina, grega... Cecília Meirelles. Adoro Clementina de Jesus.

P.: Você incomodou algumas pessoas na década de 1970, inclusive foi presa por isso, e denominada transgressora numa época um tanto confusa e repleta de estupidez. Como combateu essa onda de injustiças que assolou o País?
E. M.:
Eu não combati, sou uma apaixonada, meu ideal não está na bandeira e sim no coração. Quando sai do coração, aí não funciona. De coração, não posso fazer mal a ninguém, não puxar o tapete do outro. Sófocles dizia que “o amor é invencível nas batalhas” e eu acredito muito nisso. A estrutura enrijecida tem de ser quebrada.

P.: Fale de sua amizade com Zuzu Angel?
E. M.:
Foi ótima, desfilei muito para ela, no entanto, fui mais amiga do que manequim; quando a conheci, ela já tinha perdido o filho, estava na loucura. Ela me lembra Antígona, ela lutava muito! As pessoas diziam: “Cuidado, você vai ser morta” e ela respondia: “Já estou morta”. Tanto que a mataram. Zuzu era lenta no trânsito, as pessoas gritavam “barbeira”, e eu reclamava, falava pra ela andar mais rápido e ela dizia: “Oh, Elke, você não quer andar comigo, ande de táxi!”. A loucura dela não era a velocidade e sim o filho.

P.: Você adora uma cachaça?
E. M.:
Nasci na Rússia, tenho álcool no DNA, meu pai dizia: “Não confie em ninguém que não bebe”, que é um ditado russo. E espírito significa álcool, em latim. Então, somos espiritualizados (mais gargalhadas). Meu pai dizia pra não fazer do álcool uma rotina porque o corpo não gosta de rotina.

P.: Não ter tido filhos foi uma escolha sua “À La Machado de Assis” em “Memórias póstumas de Brás Cubas”?
E. M.:
Nunca li, mas admiro muito! Eu fiz aborto sem a menor culpa, é porque eu não sei educar uma criança. Eu não sabia o que queria ser quando criança, mas sabia o que não queria. Eu não posso ter âncoras. Minha pesquisa pessoal indica que 70% das mulheres não deviam ter filhos. Não sou leitora de livros, mas sou leitora de pessoas e, para tudo, tem de ter talento e, para pai e mãe, também precisa ter o dom. Ah, não dou conta. Como eu fui precisa. Eu penso, ah, Elke, você foi danada, você sabia o que estava fazendo.

P.: É impossível não comparar o estilo Lady Gaga com o seu, como você vê toda essa brincadeira?
E. M.:
Ih, quem é? Não conheço.

Curtas e rápidas

Uma saudade: Brasil, esses dias, estava vendo um programa cultural brasileiro e disse que estava com saudade do Brasil. Cultura popular é o que faz o país.

Uma música: “El condor pasa” – música boliviana (neste momento, ela cantou pra gente, adoramos!).

Sempre na bolsa: Espelho e batom! Agenda.
O que guarda no coração: O mundo, as 7 bilhões de pessoas, gostaria de encarar todos, mas não dá tempo.

Um lugar para descansar: São João Del Rei, Prado, Bichinho, gostaria de morrer na Grécia, seria ótimo!

Uma gargalhada para quem: Dalai Lama, Nelson Rodrigues e Bin Laden (trilogia de gargalhadas).
Uma proteção para todo o sempre: Amigos, eu tenho muita sorte com eles. Há muitos anos, fui numa cartomante e ela me disse: “Nossa, como você tem amigos!”. Você percebe que tem amigos quando está ‘fudida’! Os meus nunca me abandonaram. O Sacha, meu ex-marido, que é bem mais jovem que eu, sempre foi meu amigo, virou parente já, ele mora comigo, mas somos separados. 

Um pensamento: Um amigo sagitariano, Leonardo Boffe me disse certa vez que da paixão o oposto é o ódio, o oposto do amor é a indiferença. Eu nunca tinha pensado assim, mas concordo, e o ódio desperta a pessoa e a indiferença mata. 

Crie um look para usar agora: Todo roxo, simples, mas poderosa, com alguma coisa de amarrar. Bota bem comprida, uma bolsa com uma entidade japonesa chamada Kuramatengo e, é claro, um dread.

Ser Profashional é: Meu amigo Abigar diz que uma pessoa inteligente é aquela que faz do mínimo o máximo, vou usar as palavras dele.




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